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Aspectos Gerais e Localização Introdução Este paúl situa-se na margem esquerda do Mondego a 13 km a oeste de Coimbra. É um dos últimos paúis do que foi o imenso corredor biológico do vale do Mondego. Trata-se duma zona húmida de grande importância ecológica, habitat de várias espécies em vias de extinção, entre as quais figuram a Lontra e cerca de 120 espécies de aves que utilizam o paúl durante o ano como local de abrigo, alimentação e de reprodução. Este paúl compreende uma das maiores zonas ininterruptas de canavial do nosso país; é ocupado por aves sedentárias e migradoras que provêem do norte da Europa (no inverno) e de África (visitantes de verão). Esta reserva natural foi criada em 27/6/88, e classificada como Reserva Biogenética do Conselho da Europa com a finalidade de preservar a natureza, de sensibilizar quanto aos problemas do ambiente, de promover a pesquisa científica e de melhorar a qualidade de vida da população residente. Todavia, esta reserva é afectada por problemas em que os principais são a poluição da água e a diminuição do nível freático. Arzila é, ainda hoje, caracterizada pela manufactura de esteiras de bunho, cortado no paúl — actividade limitada a uma pequena parte da população — assim como pela pesca artesanal da enguia. A subsistência da maioria da população advém-lhe da ocupação nos sectores secundário e terciário, na área de Coimbra, complementada pela agricultura de autoconsumo, de produção diversificada, incluindo a pecuária. Localização do Paúl O Baixo Mondego é um vale de solos aluviais com cerca de 15.000 ha, atravessado pelos últimos 40 km do rio Mondego. Inclui grande variedade de zonas húmidas, com destaque para os paúis de Arzila, Madriz e Taipal. Os paúis do Baixo Mondego representam o ambiente ideal para algumas espécies de animais e plantas. O paúl de Arzila situa-se numa das digitações da planície aluvial do Mondego a cerca de 13 km a oeste de Coimbra, equidistante de Montemor e de Condeixa, na margem esquerda do Mondego, com uma orientação de NNW para SSE, tem uma extensão de cerca de 4 km pelo vale da Ribeira de Cernache e faz parte de 3 concelhos: Coimbra (freguesia de Arzila), Condeixa-a-Nova (freguesia de Anobra) e Montemor-o-Velho (freguesia de Pereira). A Reserva Natural do Paúl de Arzila (RNPA) foi criada em 27/6/88, pelo Decreto-Lei n.º 219/88, devido à sua riqueza florística e faunística, sendo posteriormente reclassificada pelo Decreto Regulamentar n.º 45/97, de 17 de Novembro. A reserva abrange uma área de 535 ha, limitada a norte pela linha do caminho de ferro do Norte, a oeste pela Estrada Municipal 1097 e pela «estrada velha de Pereira», a sul pelas linhas de alta tensão e a leste pela Estrada Municipal 605 e pela «estrada das Lameiras». Vem representada na folha 240 da Carta Militar 1/25.000 e as suas coordenadas são: entre 40º 9’ e 40º 12’ de latitude norte e entre 8º 32’ e 8º 34’ de longitude oeste. É constituída por duas zonas distintas: o Núcleo Central (área apaúlada), com 165 ha e a Zona de Protecção (estendendo-se pelas vertentes que ladeiam aquele), com 370 ha, cuja função é criar uma primeira barreira a agressões ambientais vindas do exterior. A Reserva tem um comprimento máximo de cerca de 4 km, sendo a largura máxima de cerca de 2,5 km (com uma largura média de 500 m), com a altitude mínima de cerca de 5 m perto da Ponte da Moita e a máxima de 87 m, próximo da Estrada Municipal 1097. II - Caracterização do PaúlLinhas de água (hidrografia) O paúl propriamente dito é uma zona baixa, húmida, com cerca de 165 ha, que se alonga por parte da Ribeira de Cernache, no sentido N-S. Esta ribeira sofreu obras de regularização hidráulica no século passado, tendo sido dividida em dois braços (Vala da Costa, a oeste, e Vala dos Moinhos, a leste), que ladeiam o vale e recebem as escorrências das encostas. Foi aberto um terceiro canal (Vala do Meio), para escoamento da água das exsurgências do plaino aluvial, localmente designadas por «olheiros». As três valas confluem em frente à povoação de Arzila, indo desaguar no rio Mondego, a cerca de 1 km desta povoação. Apesar destas obras de drenagem, o vale manteve sempre características de paúl, não só devido às exsurgências já citadas, mas também ao facto de serem as cotas a montante, 2 a 3 metros mais baixas que a juzante. As zonas húmidas foram, até não há muito tempo, consideradas como terras inúteis, sendo drenadas ou utilizadas como receptáculo de efluentes urbanos ou industriais. Os progressos verificados com a investigação científica, permitiram estabelecer que as zonas húmidas são as áreas de maior produtividade primária da Terra, estando a sobrevivência de inúmeras espécies dependente da existência deste ecossistema. As zonas húmidas são igualmente importantes como reguladoras do regime hídrico, mantendo o nível freático, constituindo importantes reservas aquíferas, minorando os efeitos das enchentes e da erosão ou, ainda, em termos de precipitação biológica de impurezas. Relevo (orografia) O paúl insere-se num pequeno vale aberto, com cerca de 6 km de extensão, oscilando a largura entre 300 e 600 metros; é ladeado por duas cadeias de montes, originadas por enrugamentos geológicos. A altitude é baixa, mantendo as cumeadas uma certa uniformidade, atingindo 89 metros na margem esquerda (v.g. S. Tiago) e 120 metros na margem direita (v.g. Inculca); no paúl as cotas rondam os 6-7 metros, aumentando para juzante. Os declives são medianamente acentuados, aumentando para norte e atingindo o maior pendente perto de Arzila, na vertente oposta à povoação. Clima O clima da RNPA, tendo em conta os registos meteorológicos das estações de Coimbra/Bencanta e Montemor-o-Velho, caracteriza-se como temperado húmido, de Verão seco, correspondendo à sobreposição dos climas Mediterrânico-Atlântico e Atlante-Mediterrânico da Carta Ecológica de Portugal. Geologia Em termos litológicos encontram-se na RNPA as seguintes unidades: 1.arenitos e argilas de Taveiro (do Cretáceo Superior); 2.terraços aluviais do Plistocénico, constituídos por cascalheiras ricas em seixos e calhaus; 3.aluviões do Holocénico essencialmente argilo-arenosos. Flora A Reserva está situada numa zona de transição florística atlântico-mediterrânica, caracterizada pela presença do carvalho-cerquinho. Assim, tanto se podem encontrar plantas mediterrânicas, como o medronheiro e o sobreiro, como também plantas tipicamente atlânticas como a aveleira e o carvalho alvarinho. É uma área muito rica, em termos florísticos, evidenciada no seu extenso elenco de espécies, que atinge já cerca de 300 plantas, prevendo-se que venha a ser aumentado com a inclusão de novos taxa, uns cuja existência é provável (plantas aquáticas e anfíbias) e outros, já assinalados mas não identificados seguramente, supondo-se que possa vir a atingir um total de cerca de 400 espécies. Este elevado número de plantas, encontra-se a par com a sua diversidade; pela sua situação geográfica e características climáticas e edáficas, esta área apresenta espécies xerófilas e espécies higrófilas, além de, em termos mais latos, surgir uma interpenetração entre a Região Mediterrânica e a Região Eurosiberiana, com a presença de espécies próprias de cada uma delas. Encontramos, assim, a ocorrência, um tanto inesperada, da aveleira, feto-real, bonina, e, até, do raro selo-de-Salomão, em locais húmidos e sombrios, enquanto que, nas vertentes mais soalheiras e de menor humidade edáfica, se podem encontrar o rosmaninho, o lentisco-bastardo, o sanguinho-das-sebes, etc. No que respeita à quantidade e variedade das associações vegetais, a sua riqueza não é menor; existe, nesta área, uma ecotonia entre os domínios climácicos do sobreiro e do carvalho alvarinho, além da presença do carvalho cerquinho — este como acompanhante do primeiro, já que o seu domínio climácico parece situar-se no Maciço Calcário Estremenho. Sendo de destacar, ainda, a ocorrência das seguintes espécies: medronheiro, salgueiro, amieiro, choupo, caniço, bunho, tabúa, lírio-amarelo, espadana. Fauna A RNPA foi criada devido às riquezas faunísticas e florísticas que encerra, com destaque para a lontra e para a grande diversidade do ponto de vista ornitológico. A existência das diferentes comunidades faunísticas, bem como dos seus efectivos populacionais, não apresentam de forma alguma valores estáticos. Pelo contrário, são indicadores da evolução de um ecossistema naturalmente frágil. Insectos Na Reserva, encontram-se referenciadas 9 ordens de insectos, abrangendo 61 famílias num total de 171 espécies. Peixes Foram referenciadas 6 famílias de peixes com um total de 13 espécies, merecendo destaque o ruivaco e a boga. Anfíbios e répteis Foram identificadas 9 espécies de anfíbios pertencentes a 6 famílias, e 5 famílias de répteis com um total de 10 espécies. Sendo de destacar: o lagarto de água, o lagarto comum, a rã-de-focinho-ponteagudo, a rã-castanha e a rela. Aves A RNPA oferece abrigo e alimentação a numerosas espécies de aves aquáticas (cerca de 120), quer sedentárias — como o pato-real, a águia-de-asa-redonda, o guarda-rios, o tartaranhão-ruivo-dos-paúis — quer migradoras. Destas, como visitantes de Verão, destacam-se a garça-vermelha, a cegonha, o milhafre-preto; de entre as invernantes, salientam-se a garça-branca, a franga-de-água, o marequinho e a garça-real; como visitantes de passagem, surgem o milhafre-real, a andorinha-das-barreiras, o pisco-de-peito-azul, etc. A RNPA, Zona Húmida de Importância Internacional, destaca-se como local importante nas migrações outonais de passeriformes trans-sarianos, assim como local de reprodução e invernada de espécies que se encontram ameaçadas em grande parte das suas áreas de distribuição europeias; sendo também uma área importante como local de nidificação de aves de caniçal. Mamíferos Registaram-se, já, 12 espécies de mamíferos distribuídas por 7 famílias. De entre as diversas espécies de mamíferos, destaca-se a presença da geneta e da lontra. Esta é uma espécie ameaçada devido à destruição do seu habitat, pela regularização das margens das linhas de água, poluição e perseguição de que é alvo pela cobiça do Homem, sendo uma espécie que urge preservar. A presença de recursos que possibilitam satisfazer os requisitos da espécie (locais de abrigo, de reprodução e alimento) permitem a existência de uma população residente de lontra. O acentuado declínio que se tem vindo a verificar nas últimas décadas provocou um aumento de interesse pela espécie. A lontra é objecto de vários estudos de investigação e campanhas de conservação.
•Para conservar a lontra é necessário: 1.uma fonte alimentar adequada e não contaminada; 2.vegetação ribeirinha que possibilite abrigo; 3.perturbação humana disciplinada; 4.fiscalização adequada em termos dos princípios vigentes na legislação; 5.programas de educação ambiental. •Caracterização morfológica e adaptações à vida aquática: A pelagem é espessa, brilhante e uniformemente castanha, com excepção da região do ventre que é mais clara. O corpo alongado, a cabeça achatada e com olhos pequenos, os membros curtos e a cauda longa, ligeiramente achatada e afilada na ponta, são características que manifestam a sua perfeita adaptação à vida aquática. As patas, curtas e vigorosas, com 5 dedos ligados por uma membrana interdigital bem desenvolvida, permitem-lhe mover-se agilmente na água. Mergulham e chegam a estar submersas durante algum tempo. Move-se dentro de água com o impulso das patas posteriores e do movimento sinuoso do corpo. A cauda desempenha a função de leme. A posição elevada das narinas e dos olhos permite-lhe manter-se à superfície sem ser notada. •Situação da espécie: Nas últimas décadas têm vindo a reduzir de forma significativa, os locais de ocorrência e o seu número de efectivos. Esta situação ocorre principalmente na Europa Ocidental, nos países do norte e centro, mais povoados e industrializados. •Factores que afectam a espécie: a.abate furtivo; b.perturbação humana causada por actividades recreativas junto dos cursos de água; c.mortalidade acidental: redes de pesca e acidentes de tráfego; d.poluição química: agrícola e industrial; e.alteração dos cursos de água: drenagens, regularização, extracção de inertes, construção de barragens, etc.; f.destruição da vegetação ribeirinha. Factores de perturbação Os principais problemas que afectam esta área protegida são a diminuição do nível freático, devido às obras de regularização efectuadas no Baixo Mondego, e a poluição da água, provocada pelos efluentes industriais e urbanos, e pela utilização de agro-químicos. Outros problemas são a diminuição de clareiras na vegetação aquática, provocada pela invasão do caniço, e a modificação do coberto vegetal nas vertentes devido à tendência para a substituição da vegetação natural pelo eucalipto. Apesar de já se terem dado alguns passos significativos para o atenuar destes problemas, a sua resolução depende do esclarecimento e colaboração de todos, em particular dos agricultores, industriais e autarcas. Aspectos Humanos - esteiras de Arzila A ligação da população de Arzila ao seu paúl perde-se na memória dos tempos. Há alguns anos, quando a agricultura era para muitas famílias o principal meio de subsistência, o espaço alagadiço, era o local onde crescia o bunho, matéria-prima essencial no fabrico das esteiras, cuja venda proporcionava rendimento extra, bastante apreciado numa época marcada por grandes dificuldades. As esteiras de Arzila assemelham-se a outras existentes nalguns locais do distrito de Aveiro, tais como a zona Estarreja-Canelas ou em Fermentelos, lugares onde existem zonas alagadiças e ocorre a presença do bunho. Os processos rudimentares utilizados no fabrico artesanal das esteiras mantiveram-se inalterados ao longo dos tempos. O corte do bunho é efectuado por homens, no final do Verão, utilizando o «foição», sendo uma tarefa de grande dureza; os trabalhos de escolha, ajuntamento e recolha, assim como os cuidados com a secagem, são efectuados por mulheres, que igualmente cortam o junção para fazer a «baraça», utilizada, também, no fabrico das esteiras. São feitas num tear rudimentar, composto por duas varas laterais — os «canenhos» — encostadas a uma parede, que sustentam uma tábua horizontal com entalhes, onde é colocado o bunho, prendendo-se com as «baraças» a cujas pontas foram amarradas pedras, com a função de contrapesos. Dos dois molhos de bunho encostadas aos «canenhos», a esteireira vai retirando as hastes, colocando-as horizontalmente na tábua sobre as baraças; estas, são viradas alternadamente, as do lado direito com as do lado esquerdo, trocando as pedras da frente com as pedras de trás. Ao colocar as últimas hastes de bunho, a esteireira retira as pedras e ata as pontas da baraça. A maior parte das esteiras são comercializadas através de intermediários que as procuram em Arzila. São utilizadas pelos viveiristas para protecção de árvores jovens no transporte; servem, ainda, para forrar adegas e esplanadas, para o acondicionamento de mobiliário e vasilhame, para protecção de vegetais aquando das geadas, como capacho, etc. A melhoria das condições económicas, através da ocupação nos sectores secundário e terciário na cidade de Coimbra, aliada à dureza do trabalho do corte do bunho, levou a uma progressiva diminuição do seu fabrico. Com a criação da RNPA, procura-se incentivar esta actividade artesanal, não só pela componente económica e social, mas também pela manutenção e conservação do ecossistema. ConclusãoZona húmida do vale inferior do Rio Mondego. Paúl com cerca de 165 ha, alonga-se por parte do percurso da Ribeira de Cernache. É drenado por 3 valas denominadas, de nascente para poente, Vala dos Moinhos, Vala do Meio e Vala da Costa. As 3 valas confluem em frente à povoação de Arzila, indo desaguar no Rio Mondego. A cobertura de vegetação hidrófila é essencialmente formada por bunho, caniço e tabúa. Nas margens das valas e nas zonas de transição para a área florestada encontram-se plantas arbustivas e arbóreas típicas de zonas alagadiças (choupos e salgueiros). A área tem um incontestável valor biológico, com elevada biodiversidade, particularmente sob o ponto de vista faunístico, com várias espécies estritamente protegidas por convenções internacionais. É a única zona húmida, até à data, integrada na Rede Europeia de Reservas Biogenéticas. A reserva possui um centro de interpretação onde os visitantes poderão obter todo o tipo de informações, e possui um trilho pedestre, que permite um contacto directo com o ambiente paludícola. Merece ainda destaque o artesanato característico da povoação de Arzila, que consiste no aproveitamento do bunho, espécie abundante no paúl, para a confecção de esteiras. A principal actividade da área do paúl é a agricultura, seguindo-se a pesca artesanal nas valas, embora em menor grau. |